quarta-feira, 16 de maio de 2007

Tecnostress !


Seu vôo está agradável, e você está aproveitando o tempo para ler este post. Mas gostaria que você confessasse: não vê a hora de o avião aterrissar para ligar seu celular e verificar as novas mensagens de voz? Você só está lendo esta matéria porque a bateria do notebook acabou e você não pode continuar trabalhando? E ainda mais, se você possui um dispositivo que permite receber e-mails, como um PDA ou celular, está desesperado para checar se existem novas mensagens de texto?

Se você se enquadra em alguma dessas situações, cuidado! Você é um sério candidato a sofrer de tecnostress, o efeito colateral inesperado que a maioria dos equipamentos eletrônicos criados para simplificar ou tornar nossa vida mais agradável está produzindo nas pessoas.

Em meados da década de 1990, Bill Gates predizia que a tecnologia iria tornar as pessoas mais produtivas e, como conseqüência, teriam mais tempo para se dedicar ao lazer e ao convívio com a família. Gates não estava errado quanto à produtividade, mas certamente não previu alguns fatores que acabaram tornando os computadores e outros dispositivos eletrônicos verdadeiros algozes de seus usuários.

Mais produtividade significa que menos pessoas podem fazer o mesmo trabalho. Globalização significa que, profissionalmente, você não vive mais apenas no seu fuso horário. Por exemplo: você ainda não foi convocado para uma teleconferência via satélite de madrugada?

O impacto direto desses fatores são o aumento da carga de trabalho e da quantidade de informação a ser administrada e a conseqüente diminuição do tempo para realizar todas as tarefas. O resultado é o stress, resposta fisiológica, psicológica e comportamental de quem tenta se adaptar às pressões internas e externas, só que agora turbinado pela tecnologia – por isso, rebatizado de tecnostress.

Não é o caso aqui de discutir as características do stress, mas alguns dos fatores que a tecnologia adicionou à formação do stress.

Não é frustrante quando e-mails, chamadas, mensagens telefônicas e por fax chegam em quantidade maior do que a nossa capacidade de lidar com eles? Até dez anos atrás, era possível, para a maioria de nós, limitar a alimentação do stress à nossa presença no escritório. O máximo que poderia acontecer era a ligação de algum “estressado” do escritório para o telefone de casa.

A malvada mobilidade

A culpa não é da tecnologia, que foi criada com boa intenção. Como o telefone celular, que permitiu às pessoas falarem e serem encontradas em qualquer lugar. Ou o notebook, que possibilitou trabalhar durante as viagens. Ou ainda o Blackberry, que iniciou a onda de receber e-mails em qualquer lugar.

Ótimo, não? Nem tanto. Libertados dos fios, os gadgets eletrônicos eliminaram a dimensão física e presencial da nossa vida profissional.

Sem perceber, as pessoas foram se deixando levar pelas facilidades que a mobilidade trouxe e que criaram uma verdadeira dependência desses dispositivos, o que pode ser tão nocivo quanto a dependência química ou alcoólica.

Sem fios, mas preso

Liderando o lado negro da tecnologia, um autêntico Darth Vader, está o e-mail. Estudos revelam que executivos e profissionais estão absolutamente dependentes de abrir suas caixas postais em intervalos cada vez mais curtos. A impossibilidade de checar a caixa de entrada aumenta a ansiedade e altera o estado de espírito dessas pessoas.

Como o e-mail se tornou a principal forma de conversação entre a maioria dos profissionais, ter acesso às mensagens se torna mais importante do que usar o telefone ou conversar pessoalmente. É fácil, é rápido, e o custo é praticamente zero.

O notebook iniciou a era do acesso remoto, móvel, ao e-mail. Mas ainda apresenta limitações, porque não se pode carregá-lo para todos os lugares e ele ainda depende da existência de uma linha telefônica ou rede Wi-Fi, sem fios.

Já o celular você leva para todos os lugares, cabe no bolso, pode ser usado no carro ou ônibus a qualquer hora e lugar onde haja cobertura. O grande impulsionador dessa nova febre é um dispositivo chamado Blackberry, um celular que dispõe de serviço de acesso a e-mails de forma automática. O próprio aparelho se encarrega de baixar as mensagens assim que elas chegam à caixa postal. Esse método, chamado de push-mail, difere dos PDAs – computadores de bolso – e dos celulares convencionais, que exigem que você ordene a leitura dos e-mails no seu servidor. A febre do Blackberry e similares ainda está longe de atingir o seu auge, mas causa preocupação.

Um vôo que fiz de São Paulo a Recife com alguns executivos que iriam participar de um evento me mostrou a dimensão exata dessa dependência. Ao ouvir a comissária dizer que era possível ligar aparelhos eletrônicos, um deles sacou seu dispositivo do bolso, que funciona com o módulo de celular desativado, e iniciou a leitura de centenas de mensagens que lhe tomaram o restante do tempo de vôo. Chegando a terra e podendo ligar o celular, imediatamente disparou as respostas que havia redigido no avião e passou todo o percurso entre o aeroporto e o hotel de Porto de Galinhas lendo novas mensagens.

Durante os três dias do evento, pude vê-lo diversas vezes, nunca longe de seu algoz eletrônico, nem mesmo na piscina. O mais curioso era sua aparente felicidade de poder estar conectado em tempo integral. Para ele, o conceito de qualidade de vida e lazer certamente ganhou outra visão.

Pois bem, se você já chegou a esse ponto, cuidado! Os reflexos disso aparecerão em sua vida pessoal. Seu comportamento familiar vai mudar, para pior. Mas tudo bem, quando estiver sentado na sala de estar, você pode mandar um e-mail do seu celular para o seu filho, que está na internet há várias horas no seu quarto, e convidá-lo para um bate-papo. Não, não me refiro a um chat, mas a uma conversa frente a frente, ou até para um antiquado hábito como jogar bola ou andar de bicicleta. Talvez a resposta venha numa mensagem SMS no celular, dizendo que não vai dar, pois ele vai jogar futebol com um amigo no Second Life, um mundo virtual da internet.

Ainda há tempo. Você pode usar a tecnologia para o bem ou para o mal. Ser Darth Vader ou Obi-Wan é apenas uma questão de como usar o sabre a laser ou o celular.

Retirado do Ícaro Brasil

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